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O Mito das Reformas
 

Hoje, todos nós fazemos com que o mundo se mova muito depressa e de um forma que por vezes temos dificuldade em acompanhar. A nossa realidade sofre uma alteração quase diária. O que hoje é entendido de uma forma, amanhã é de outra. A somar a isto, somos constantemente bombardeados com o slogan: “É preciso reformar!”. Analisemos alguns casos paradigmáticos da nossa vida diária.

A Educação é um tema central do nosso dia-a-dia, sendo constantemente objecto de inúmeras alterações estruturais. Temos os novos estatutos dos professores, dos alunos e das escolas, novas formas de avaliar os professores e novas formas de indisciplina e violência na escola. Estes são apenas alguns aspectos, para os quais, a resposta dos envolvidos fica limitada à contestação das alterações propostas.

Na Justiça, as alterações ao mapa judiciário e a nova forma de gestão dos tribunais, são, nesta área, a ponta do iceberg, das profundas alterações encetadas por este governo. Aqui, como as propostas são tão complexas e o sistema está de tal forma blindado, a contestação é exclusivamente corporativa e no sentido de manter a ordem instituída.

Na Saúde, as alterações à rede de urgências e a nova forma de organização dos centros de saúde, são alguns exemplos das profundas alterações, ao Sistema Nacional de Saúde. Aqui, como nas áreas anteriores, uma vez mais, limitam-se a contestar para manter o que todos nós sabemos que não funciona.

Estes são apenas alguns exemplos das alterações profundas e estruturais, levadas a cabo por este governo. Face às realidades instaladas antes destas alterações, ninguém de bom senso, pode contestar a necessidade de encontrar novas formas de responder a esses desafios. Mas deverão ser estas alterações ao “status quo”, objecto de reforma ou de mudança? Vamos então analisar estes dois conceitos.

Reformar é um processo que não implica a alteração das condicionantes da realidade individual ou colectiva. Significa uma mudança dentro do mesmo paradigma social, muitas vezes é uma reversão ao que é percebido como, o estado original e puro do objecto. O sentido da reforma raramente existe.

Mudança significa fazer de forma diferente, sendo que em alguns casos, de uma forma totalmente diferente. Mudar, está intrinsecamente ligado a um sentido global, com direcção e fim único e estrutural.

Face a estes conceitos, rapidamente percebemos que as únicas reformas que o País precisa, são as reformas daqueles que impedem a mudança. Os desafios que se nos colocam diariamente são novos e muito diferentes dos anteriores. Estes novos paradigmas não se resolvem com a reforma dos modelos anteriores. Temos de encontrar novos modelos, que nos permitam lidar com as novas realidades do mundo. Já diz o povo na sua imensa sabedoria que “o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita”. A única forma que existe para lidar com estes novos desafios é mudar. No entanto, a mudança implica uma alteração profunda na forma como vemos a nossa realidade e embora traga em si novos perigos e desafios, também encerra sempre inúmeras oportunidades.

Assim, um processo de mudança nunca terá sucesso se não conseguirmos envolver as pessoas que são parte dessa mudança. Este é o único caminho possível num contexto democrático e de mudança, absolutamente necessário para o desenvolvimento do País. A mudança não se gere, a mudança lidera-se. A criação de novas oportunidades, como ferramenta de promover a igualdade social e o diálogo, são as únicas formas de liderar um processo de mudança social e económica.

A apresentação do novo quadro que regulamenta as relações do trabalho e a forma como o governo está a levar a cabo esta discussão, é o exemplo concreto de como se muda algo, que já não dá resposta a esta nova realidade social, de uma forma participativa e envolvente. 

Hoje vivemos numa sociedade “aberta”, na qual a liberdade, o debate, a inovação e a experiência são vectores de permanente transformação. Estas mudanças no perfil da sociedade, tornam mais rica e complexa a interacção entre os cidadãos e as instituições políticas. As pessoas recorrem cada vez mais à sua própria experiência para tomar uma posição. É notória a existência de uma crescente exigência de verdade e transparência em todos os processos. Estamos no início de um novo ciclo político, em que o verdadeiro debate se dá entre velhos modelos e as novas ideias, do qual só pode emergir o fortalecimento da democracia.

Rui José Prudêncio

 
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